Sem | André Cardoso

16/03/2016

 

"Sem" é um conto escrito por André Carsoso. Publicado originalmente na Revista Piauí, edição 113, em fevereiro de 2016. Acesse o link da publicação original aqui

 

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Luiz Alberto Correia era uma fraude, pelo simples fato de que ele não existia. Nada na sua aparência ou no seu comportamento denunciava sua condição; em seu íntimo, porém, ele desconfiava de que muitos à sua volta percebiam instintivamente que ele não era real. De modo geral, comparecia ao trabalho com pontualidade e cumpria suas tarefas com correção, ainda que sem entusiasmo. Era garçom num bar perto da praça da igreja. Vez ou outra arriscava uma piada com algum freguês, sem grande brilhantismo, mais por uma convicção de que isso fazia parte de suas atribuições do que por um impulso expansivo de bom humor ou pela vontade de estabelecer um fugaz contato humano. Preferia a discrição e, se pudesse, atenderia os frequentadores do bar sem lhes dirigir uma única palavra. Não era um misantropo, não os detestava nem lhes queria mal (tampouco os amava), mas era presa constante de uma esmagadora timidez. Com os colegas conseguia conversar com certa facilidade, e estes o consideravam até bastante agradável, mas não lhe dedicavam uma amizade profunda, intuindo nele um certo alheamento, como se Luiz Alberto nunca estivesse de todo ali, na sua presença.

 

Isso, é claro, o deixava preocupado. O natural era ter amigos, trocar confidências, sentir a necessidade de estar junto das pessoas. Mas se via incapaz disso. Percebia que a sua irrealidade era uma barreira entre ele e os outros. Ao chegar ao bar, sempre se mostrava cordial, nem alegre nem triste, e saía do mesmo jeito, sem se deixar afetar pelos incidentes que inevitavelmente ocorrem em qualquer lugar onde as pessoas se reúnem para trabalhar ou se divertir. Nem por isso deixava de rir com seus colegas dos vexames que alguns fregueses mais exaltados periodicamente protagonizavam, nem de participar das rodas de queixas e comentários maldosos que os funcionários do estabelecimento naturalmente dirigiam aos patrões às escondidas. Essas ocasiões lhe davam uma breve sensação de pertencimento. Mas nunca proferia uma opinião pessoal, autenticamente sua – não saberia como fazer isso. Contentava-se em ser um eco das pessoas reais e, sendo esse eco, criava para si mesmo a ilusão temporária de que também era real. Ouvia mais do que falava e tinha o cuidado de sempre seguir o ponto de vista dominante. Às vezes ficava aturdido ao se ver obrigado a defender simultaneamente posições opostas. Nesses casos, logo se calava, assentia vagamente com a cabeça e soltava um sorriso que tinha a intenção de ser ao mesmo tempo compreensivo e enigmático. Essa atitude o poupava de conflitos, é verdade, mas também o tornava inexpressivo, quase invisível.

 

As conversas roubadas furtivamente do expediente de trabalho forneciam a Luiz Alberto a oportunidade de estudar as pessoas reais. Era fascinado pela realidade, justamente por não fazer parte dela. Olhava para as pessoas de verdade como quem observa os peixes dentro de um aquário. E com que desenvoltura nadavam esses peixes! Sabiam da vida por experiência própria, e era impressionante a quantidade de coisas que aconteciam com eles. Tinham muitas certezas, que lhes davam uma enorme nitidez. Luiz Alberto acompanhava com deslumbramento suas palavras, seus gestos, seus olhares, atrás dos quais adivinhava conteúdos que mal podia imaginar. Era isso: as pessoas estavam repletas de coisas por dentro, enquanto Luiz Alberto via apenas um restrito espaço vazio em seu interior. A concretude do mundo lhe era esfregada na cara diariamente, ao passo que ele era tênue a ponto de se surpreender com o fato de ter um corpo, ainda que muito magro.

 

Com frequência, quando atravessava apressado a parte moderna da cidade rumo ao trabalho, ele se sentia dissolver no meio da multidão que se embaralhava nas calçadas, entrando e saindo de lojas, parando para conversar em duplas ou pequenos grupos perto das esquinas, correndo de um lado para o outro a fim de cumprir afazeres muitas vezes insondáveis. Luiz Alberto passava por tudo isso em estado de quase total abstração, sentindo-se invisível diante dos olhares distraídos que não o percebiam. Era como se ele se esquecesse de existir. Talvez, nessas ocasiões, sua existência de fato não fosse necessária e se cancelasse. De qualquer forma, era só quando chegava à tranquilidade do centro histórico, já bem perto do bar, que ele voltava para si mesmo e retomava mais uma vez sua enganosa substância. Nas temporadas de maior movimento turístico, ele se perdia em meio ao casario, intimidado por aqueles estranhos cuja conversa alta e animada anunciava uma existência bem mais sólida do que a sua.

 

Nessas épocas, era só ao voltar tarde da noite do emprego que Luiz Alberto encontrava uma relativa calma. Morava num quartinho alugado na casa de dona Solange, em uma rua transversal fora do centro histórico. Era uma casa pequena e discreta, que tentava imitar o estilo das construções coloniais, mas cuja impostura se denunciava no acréscimo de elementos modernos e na ingenuidade padronizada com que buscava seguir o seu modelo.

Era comum dona Solange oferecer a Luiz Alberto um almoço ou jantar, ou então simplesmente puxar conversa quando se sentia particularmente solitária, com a desculpa de que acabara de coar um café. Já ocorrera várias vezes a Luiz Alberto que era dona Solange quem o imaginava apenas para ter a garantia de um pouco de companhia e dispor de alguém que lhe trouxesse algum rumor do mundo lá fora. Essa impressão era reforçada pelo fato de a mulher, já avançada na meia-idade, não ter namorado nem marido, nem tampouco algum parente à vista. Além disso, apesar de ainda dispor de outro quarto livre em sua casa, nunca procurara nenhum locatário além de Luiz Alberto. O quarto extra ficava lá, vazio, mas impecavelmente limpo e arrumado, sempre pronto para receber uma visita que nunca chegava.

 

Luiz Alberto, porém, não se julgava uma boa companhia. E de fato não era. Como já vimos, acreditava não ter nada de interessante a acrescentar a respeito de qualquer assunto, e por isso preferia ficar calado durante as ocasiões em que se via preso numa conversa com dona Solange. Também não conseguia prestar muita atenção ao que ela lhe dizia. Para dona Solange, nada disso tinha muita importância; bastava-lhe a ilusão de que de vez em quando havia alguém que a ouvisse. Luiz Alberto, por sua vez, permanecia ao lado da proprietária da casa não só por uma questão de educação e senso de dever, mas também pela gratidão que o tomava ao se ver necessário, ainda que apenas por alguns momentos. Não é de espantar que ele saísse dessas conversas com dona Solange sentindo um certo grau de frustração.

Ainda que conseguisse perceber o tamanho da solidão de dona Solange, Luiz Alberto intuía que ela não tinha muita imaginação. Era, então, pouco provável que sua senhoria o tivesse imaginado. Caso contrário, os encontros esporádicos entre os dois não seriam tão insatisfatórios. Algo estava faltando ali, e esse algo, Luiz Alberto bem sabia, era ele próprio. Em sua casa, assim como na rua ou no bar em que trabalhava, ele era acima de tudo um vazio. E, no entanto, o arremedo que era a sua vida em algum momento se tornara necessário para aquele que o inventara. Mas quem seria essa pessoa? Infelizmente, não tinha muitas pistas a seguir. Ele perguntaria a seus pais, mas eles moravam muito longe, numa cidadezinha no interior da Bahia, e, como se isso não bastasse, eram pessoas igualmente imaginárias. Sua condição era secundária a ponto de mal passarem de dois nomes e um endereço, que sequer precisam ser mencionados aqui. Talvez tivesse irmãos – achava que já tivera um ou dois, mas não se lembrava bem deles, e era possível que o número mudasse de acordo com as circunstâncias. De qualquer modo, sua família não era das mais férteis. Certidão de nascimento, carteira de identidade, atestado de reservista e algumas lembranças eram todos pura invenção e, portanto, completamente inúteis.

Não se pode dizer, porém, que essa situação chegasse a lhe causar uma verdadeira angústia. Talvez por consequência de seu caráter ficcional, tudo o atravessava como um inseto esvoaçando pelo ar, pouca coisa deixava uma impressão permanente, o tempo passava quase sem tocá-lo. Não havia grande diferença entre cinco ou dez anos: tudo se resumia ao mesmo intervalo nebuloso entre lugar nenhum e o presente. Isso o aborrecia, às vezes o inquietava, mas ele sabia bem que uma péssima memória era também uma característica inescapável da sua condição de ser imaginário. As coisas aconteciam com Luiz Alberto, mas não lhe deixavam marcas. Ele permanecia inalterado, impermeável. Tampouco deixava alguma impressão nas pessoas à sua volta. Havia uma indiferença mútua entre Luiz Alberto e o mundo.

Essa indiferença foi quebrada um dia por um incidente trágico, que a Luiz Alberto pareceu incongruente, quase uma traição, uma ruptura do pacto silencioso que mantinha com a ordem das coisas e que lhe garantia uma existência monótona, é verdade, mas também sem sobressaltos ou grandes sustos. Seus aborrecimentos eram grandes, como os de qualquer um, mas cotidianos, mesquinhos. Restringiam-se à perpétua escassez de dinheiro, à falta de amigos, a angústias mais ou menos desmotivadas, a dores de dente em momentos particularmente inconvenientes. O que lhe aconteceu nessa ocasião foi totalmente desproporcional e, até onde ele pôde avaliar, gratuito. Tinha acabado de fazer umas compras na farmácia e estava correndo para o banco, quando tropeçou na beira da calçada, deu alguns passos descontrolados, sem equilíbrio, e caiu no meio da rua, bem a tempo de ser atropelado por um caminhão que estava entrando na cidade. O veículo, não muito grande mas bastante pesado, pois estava ainda com toda a sua carga, passou por cima das suas pernas. Felizmente, Luiz Alberto prontamente desmaiou com o choque e tudo o que sentiu foi o tombo.

 

Quando acordou, já estava no hospital, a perna direita engessada até a coxa, a esquerda amputada um pouco abaixo do joelho. Não ficou muito tempo internado, bem menos que julgava ser necessário, levando em conta a gravidade do que lhe acontecera. Foi despachado depressa para casa, tendo sido tratado com a cortesia que era de esperar num hospital público. Obviamente precisavam com urgência do leito que ele ocupava, como sempre acontece em qualquer hospital. Teve a sorte de ter uma recuperação plena e de conseguir uma pensão por invalidez. O dinheiro não era muito, mas suas necessidades eram ainda menores agora. Dividia o seu tempo entre sessões de fisioterapia, conversas mais longas, mas também mais melancólicas, com dona Solange e longos períodos trancado no quarto, olhando ora para o movimento na rua pela janela ao seu lado, ora para o triste e feio coto que lhe restava logo abaixo do joelho esquerdo, e que ele mexia de um lado para o outro com uma persistência perversa. Podia-se dizer que ele refletisse, mas talvez fosse mais correto dizer que ele estava simplesmente aturdido. O que faz um homem que já não existe quando ainda por cima lhe arrancam mais um pedaço?

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